Segue o teu destino

"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios."

(Ricardo Reis - Fernando Pessoa)

Gil realçado

"A força é bruta / e a fonte da força é neutra / e de de repente a gente poderá..."
Meu mundo é dos bolos trufados ao final da tarde. É dos doces e dos salgados. Dos olhos e da boca. Do tato que se ouve e do cheiro que alimenta. Dos carrosséis e das mandalas. Meu mundo é das ansiedades do porvir e da água que hidrata as vicissitudes. É dos minutos a mais que se demora na cama e do precioso afago que se recebe em um dia difícil. É da imensidão das vontades. É do sorriso contido e das bochechas que o sangue faz corar. Meu mundo é um mundo em que o tudo está contido.

O enigma

De Rubem Alves, um de meus autores mais queridos: "O que importa é simplesmente constatar que através da imaginação o homem transcende a facticidade bruta da realidade que é imediatamente dada e afirma que o que é não deveria ser, e que o que ainda não é deverá ser."

Fragmento

Poucas passagens de minha infância foram realmente marcantes a ponto de fazer minha saudade chorar. Uma das cenas mais inesquecíveis aconteceram aos meus seis pequenos anos de idade: as tardes nas quais desenhava sobre o chão de madeira da sala, no apartamento em que morei com minha mãe. Dourados pela luz entardecida, os tacos de madeira eram os co-autores do papel branco - o universo sob o qual eu coloria a vida - marcando os meus rabiscos por baixo, com suas divisões, embalados pela cadência de Chico Buarque tocando na antiga vitrola...

Eu sei, mas não devia



"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

(Texto de Marina Colasanti)

Quero ser diferente


Faço minhas as palavras de Caio Fernando Abreu: "Nenhuma luta haverá jamais de me embrutecer, nenhum cotidiano será tão pesado a ponto de me esmagar, nenhuma carga me fará baixar a cabeça. Quero ser diferente. Eu sou. E se não for, me farei."

Defeito ou qualidade?

Não saberia dizer se configura defeito ou qualidade o excesso de sentimento que meu peito protege e embala. Quando amo ou quando odeio, não os faço. Venerar é meu modus operandi.

À meia noite


Tive minha primeira experiência woodyaliana ao assistir ao filme "Meia Noite em Paris". Não sabia, entretanto, que um filme haveria de me livrar da culpa de algumas intempéries do meu passado. O personagem Gil Pender (Owen Wilson) prendeu-me a atenção logo no início do filme, não somente por sua inerente busca como artista, como também pela vivência limitadora e castradora dos sentidos na qual estava preso, envolto em uma relação amorosa de patética subestimação de seus anseios pessoais.

O sonho, a lucidez, a obstinação de Pender. A intolerância, o desafeto, o julgamento de Inez (Rachel McAdams). Mais que uma simples relação amorosa entre homem e mulher, há ali a condição social do homem. Se por um lado estar na linha de frente da própria batalha, posicionando-se avant-garde estamos vulneráveis às dores provocadas de toda sorte de retaliações, por outro, aprisionar anseios para preservar a estagnação é adoentar a alma. Pender busca pela transformação através da arte e dos sentidos - sutilmente subescrito em cada diálogo e atitude desses personagens, e o modo como cada um resolve as questões que a vida lhes apresenta.

É à meia noite, no metafórico último badalar do sino da igreja, que o mundo desnuda-se para Pender, abrindo portas para universos espaço-temporais distintos. O que havia até então cede a possibilidade para o novo; uma nova experiência se desvenda sobre quatro rodas, proporcionando a auto-descoberta de Pender. Há que se levar em conta o desejo e a intensidade que se aplica sobre o que queremos enxergar. Não há transformação se não houver a manifestação do querer.

Não há tempo para o que foi. É tempo do porvir. Caminha-se para frente, tomando impulso na tentativa de um dia alçar vôo. A mudança sempre implicará em ganhos, mas também em perdas, de modo que a reticência humana não é à toa. Mas, se o cômodo conforta, também limita.

Côncavo e convexo

Não saberia dizer se haveria de ser por mera coincidência lingüística o lúcido e o lúdico possuírem significados que se completam e existam tanto na função quanto na forma. Isso porque os signos visuais "c" e "d" ordenam-se de modo sutil em cada uma dessas palavras, propondo-lhes interpretações distintas.

O que é lúcido ilumina nossa percepção e acende a luz no convexo figurativo. Dentro dele, a vida guarda-se inteira preservando cuidadosamente os acontecimentos e as conseqüências da ação. O lúcido amplamente expande-se em sua sólida lógica. O lúcido é o porvir do sonho, berço para a confecção das possibilidades.

O lúdico, destemido de viver o sonho, respira no côncavo o que dentro dele flutua. Possui todas as cores e é abastado de mundo. Um ventre fecundo que impermeabiliza a realidade de outras existências. O lúdico abriga o habitat do imaterial tangível e se recria. O lúdico guarda no tempo o tempo que não há.

A semi-suspensão da virtualidade

Minhas pernas aprenderam finalmente a caminhar.
Alternam-se relativamente bem, uma e outra,
no mesmo ritmo da gota repetente que pula pela torneira.

Meu corpo vai, com cuidado, delineando novos traços -
ele delimita, assim, a futura pausa.
O que penso, já penso bem.
Respeito os ruídos do que sinto.

O primeiro cardume nasceu na imensidão
de água profunda que há em mim.
Mas há apenas um buraco na areia
para onde tudo vai escoar...

Mais do mesmo


Uma das coisas mais chatas inclusas com nosso consentimento no pack da "vida hype contemporânea" é a superficialidade com a qual é tratado grande parte dos assuntos de interesse sócio-cultural. Estabeleceu-se, então, um modelo de vida S.D.P.M. (Super Depois do Planeta dos Macacos) no qual, além de estarmos evolutivamente anos-luz à frente desses adoráveis primatas, também seríamos mais abastados intelectualmente que eles.

O tipo de abordagem midiática sobre os assuntos de interesse social, político e principalmente cultural geralmente são descontextualizados, ou seja, quase sempre são focados essencialmente no nível de alarde social à efetivamente educar e informar, pontuando questões irrelevantes para uma repercusão que lhe garantirá mais alguns cliques ou pontos no ibope. É a superficialidade da informação gerando um prazer orgasmático, alimentando uma falsa ideia de apreensão total; ideia esta, moldada no ideal pragmático da contemporaneidade.

Disse uma vez o pianista e compositor Béla Bartók, que para bem ouvir música no rádio se fazia necessário ler sua partitura ao mesmo tempo. Naquela época, nos idos de 1930, todos sabiam ler música. "Aos poucos nos tornamos consumidores passivos de arte", disse Bernard Stiegler em sua última visita ao Brasil para uma conferência onde se discutiu o papel das novas tecnologias. Acredito que nos tornamos passivos não somente em relação a arte, mas sim, estamos acometidos de uma apatia generalizada que nos configura como um grande baú de informações fragmentadas, perdidas, distorcidas, mitificadas... Somos receptores de dados pré-fabricados que, em certa medida, não conseguimos processar totalmente.

As informações são disparadas em progressão geométrica, em cintilantes espermas virtuais e catódicos que migram para dentro do ventre mental. Por sorte, acabam formando um enorme caleidoscópio de opiniões diversas e argumentos pontudos, obtusos, engordando o cerebelo com microinformações que nos incentivam cada vez mais a uma vivência pragmática e superficial. Estamos conectados, porém desenraizados; cotidianamente expostos a uma espécie de "burocracia informacional", um sistema darwinista cujo papel é selecionar ou descartar indivíduos de acordo com o seu grau de absorção de informação atual. Dessa forma, corremos contra o tempo para a captação de novas ideias. Eis que o tempo é então suplantado pela falta dele.

Filosofia de bar

Eu ainda prefiro as discussões filosóficas das mesas de bar. Preferencialmente as que são protegidas pelos santos gelados, pois são eles que despertam em nós o conhecimento profundo sobre a falta dele todo.

Poema em folha menor

Em meio às folhas
caíram meus olhos
derramando sob elas
minhas visões do mundo.
Enquanto respiravam,
as gotas escorriam por sobre
a pele verde clorofilada.
Insuspeita natureza,
de lágrimas em compassos,
rodando em meu micro-universo.
E tudo o que era meu, partiu-se:
fluídos coloridos transcenderam no etéreo.

Sobre o que desconheço

Anseio pelo que ainda não conheço. Sendo assim, não posso amar, nem odiar. Apenas desconheço. Experimento o sabor mais verdadeiro do que, embora inexista fisicamente, possui a máxima, a completude que somente o tempo proporciona.

Azul-índio

O índio azul
destituía-se
de toda a sua passagem
pelo Meridiano.

E quanto mais quente,
mais arco-sol ele plantava
na superfície da consequência.

Antropofagia pescada

O velho pescador
derramava sua mão
sobre a rede.

Longo e bem tramado
era o leito oscilante,
que dançava no mar.

Em cada respiro
ele vigiava o micromundo
capturador dos peixes.

Tal como uma bailarina
em rodopios sôfregos
colhia as frutas do imenso.

As carnes brancas cintilavam
sob o sol das tardes vazias
morrendo aos pulos.

Quanto espaço possuía
cada universo daquela trama
em que escaparia o quântico?

Pouco espaço resistia
em prender todos os peixes
na molhada morte.

Uma vida diminuia.
A outra, humana,
engrandecia-se.

E o pôr-do-sol anunciava
na horda de luzes
o próximo futuro pescado...

Eu estou alguém

Eu estou alguém. Na beira da possibilidades, esquinando um futuro de vida.
Eu estou alguém entre o acaso e o palpável, na epiderme do meu campo tátil.
Renovada, reciclada, refeita. Meu rarefeito efêmero, outrora, pôs-se feito de raridades. Hoje é ocaso.
Eu estou alguém de fero instinto. Andarilha sobre o caminho que se faz a medida em que eu faço o caminho.
E caminho. Mais um pouco.

As crônicas do menino que andava sobre a pele dele mesmo

Hoje meu dia amanheceu assim meio galático. Ontem à noite andei por entre chãos de buracos vazios e cheios de ar. Eu me contive para não morrer de medo, pois a cada passo eu tinha a sensação de que cairia em algum deles e seria meu fim. Ao mesmo tempo, essa leve insegurança tátil não me prendia ao solo. Eu me sentia tão livre quanto o ar que dançava por entre meu corpo. E eu queria mais. Porque, diferentemente dos chãos habituais pelos quais já havia andado, aqueles novos chãos possuíam algum macio recheado, confortante. Era como se andássemos por cima de enormes colchões d'água, que oscilam em sutis movimentos a cada passo que se ousa alcançar.

Em minhas descobertas noturnas eu também pude sentir uma luz asfixiante. Nela continham partículas ultradimensionais cósmicas, proporcionando uma cegueira direta, dura. Foi essa luz que guiou meu todo durante o percurso. E os meus olhos... definitivamente meus olhos não eram mais os mesmos. Ou, ainda que fossem os mesmos olhos, minha visão era distinta e subia, a cada passo, os degraus mais altos de minha equívoca compreensão.

Eu caminhei durante toda a noite sob a fluidez embriagante do chão e da luz. Eu existia ao redor de tudo o que eu era. Enquanto eu estiver vivendo, eu sei que estarei vivo.